Quilomícrons são partículas lipoproteicas essenciais para o transporte de lipídios no organismo. Produzidos no intestino delgado após a ingestão de gorduras, eles permitem que triglicerídeos, colesterol e vitaminas lipossolúveis circulem pelo meio aquoso do plasma. Embora exerçam uma função fisiológica fundamental, sua presença em excesso na circulação provoca alterações físicas e analíticas importantes no sangue, sendo a principal responsável pelo fenômeno conhecido como lipemia.

Na rotina laboratorial, os quilomícrons deixam de ser apenas estruturas bioquímicas e passam a representar um desafio técnico, uma vez que modificam a aparência do soro, interferem em métodos analíticos e podem comprometer a confiabilidade dos resultados.

Estrutura e função

Essas partículas lipídicas são as maiores lipoproteínas presentes no plasma. Sua estrutura é composta por um núcleo altamente hidrofóbico, rico em triglicerídeos e ésteres de colesterol, envolto por uma monocamada de fosfolipídios, colesterol livre e apolipoproteínas. Essa organização permite que grandes quantidades de lipídios, que seriam insolúveis em água, sejam transportadas pelo sangue.

Funcionalmente, sua principal tarefa é distribuir os lipídios provenientes da dieta aos tecidos periféricos, especialmente tecido adiposo e muscular, onde os triglicerídeos são armazenados ou utilizados como fonte de energia.

Quilomícrons e a formação da lipemia

Em condições fisiológicas, os quilomícrons aparecem no plasma após a ingestão de alimentos ricos em gordura e são gradualmente removidos da circulação. No entanto, quando sua concentração se torna elevada, ocorre um acúmulo de partículas lipídicas em suspensão, resultando em lipemia.

A lipemia é caracterizada pelo aspecto turvo, esbranquiçado ou leitoso do plasma ou do soro após a centrifugação do sangue. Esse efeito visual não se deve à dissolução dos lipídios, mas à presença dos quilomícrons como partículas coloidais, capazes de dispersar a luz de forma semelhante ao que ocorre em emulsões.

Quanto maior a quantidade de quilomícrons circulantes, mais intenso será o grau de lipemia observado.

Aspecto físico do soro lipêmico

O soro normal apresenta-se límpido e levemente amarelado. Já na presença de quilomícrons, o soro adquire uma aparência opaca, podendo variar de discretamente turvo até intensamente branco.

Em amostras com concentração extremamente elevada dessas partículas, pode-se observar, após repouso, a formação de uma camada esbranquiçada na superfície do tubo, conhecida como camada cremosa. Esse fenômeno ocorre porque os quilomícrons possuem densidade inferior à do plasma, tendendo a flutuar.

Esse aspecto visual é uma manifestação direta da lipemia induzida pelos quilomícrons.

Relação com triglicerídeos

Embora a lipemia seja frequentemente associada ao aumento de triglicerídeos, é a presença de quilomícrons que determina o grau de turbidez da amostra. Triglicerídeos podem circular ligados a diferentes lipoproteínas, mas apenas os quilomícrons possuem tamanho e composição suficientes para alterar significativamente a aparência do soro.

Assim, valores elevados de triglicerídeos nem sempre resultam em soro lipêmico, enquanto pequenas elevações acompanhadas de grande quantidade de quilomícrons podem produzir intensa turbidez.

Persistência de quilomícrons após jejum

Em indivíduos saudáveis, os quilomícrons são rapidamente removidos do plasma após o período pós-prandial. Entretanto, em diversas condições metabólicas, sua depuração é prejudicada, levando à persistência dessas partículas mesmo após o jejum.

Situações como dislipidemias genéticas, diabetes mellitus descompensado, síndrome metabólica, doenças hepáticas e uso de determinados fármacos favorecem o acúmulo de quilomícrons, tornando a lipemia um achado frequente em amostras laboratoriais.

Interferência laboratorial associada aos quilomícrons

A lipemia causada por quilomícrons interfere diretamente em diversos exames laboratoriais. As principais formas de interferência incluem:

  • Dispersão de luz, que afeta métodos fotométricos
  • Redução da fração aquosa do plasma, alterando a concentração aparente de analitos
  • Interação física entre lipídios e substâncias analisadas

Como consequência, exames bioquímicos, eletrolíticos e hormonais podem apresentar resultados falsamente elevados ou reduzidos quando realizados em amostras ricas em quilomícrons.

Por que a centrifugação não elimina a lipemia

A centrifugação separa células do plasma, mas não remove quilomícrons. Essas partículas já estão presentes na fração líquida e, por serem menos densas, não sedimentam. Ao contrário, tendem a permanecer em suspensão ou migrar para a superfície.

Assim, uma amostra lipêmica continuará lipêmica mesmo após centrifugação adequada, evidenciando que a lipemia é uma propriedade intrínseca do plasma, e não um artefato de preparo.

Os quilomícrons ocupam uma posição central na compreensão da lipemia. São eles que conferem ao soro seu aspecto branco, turvo e opaco, além de serem os principais responsáveis pelas interferências analíticas observadas em amostras lipêmicas.

Na bioquímica clínica, compreender o papel dessas partículas é essencial para interpretar corretamente os resultados laboratoriais e reconhecer os limites impostos pela natureza da amostra. Em última análise, os quilomícrons revelam que, muitas vezes, a complexidade do exame começa muito antes da análise, no próprio sangue que chega ao laboratório.

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